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Informaçao da
Costa do Marfim, terra do Alpha blondy


Algum tempo atrás, a
mídia falou de um navio proveniente do Benin (África Ocidental),
transportando 279 crianças destinadas ao trabalho escravo e que foi impedido
de ancorar no Gabão. Depois que o fato foi noticiado, tentou-se fazer uma
inspeção no navio mas, como era de se esperar, as crianças não estavam mais
lá.
Infelizmente, o trabalho escravo de menores é uma das muitas pragas
que hoje assolam a África. Pe. Antonio C. Nunes, missionário do Pime há 18
anos na Costa do Marfim, fala desse problema neste país.
O antigo presidente da Costa do Marfim, Houphuet Boigny, falecido em 7 de
dezembro de 1993, data que coincide com a da independência, obtida em 1960,
escreveu seu nome nos anais da história de seu país quando, em 1948, fez
aprovar um projeto de lei na assembléia legislativa francesa pedindo a
abolição do trabalho forçado.
A Costa do Marfim continuou sendo colonizada pela França, mas livre do
trabalho forçado. Mais tarde, em 1960, o "libertador" desse tipo de trabalho
seria também o "pai da independência" dos marfinianos.
Esse refrão ecoou por mais de 30 anos nos ouvidos dos marfinianos;
período em que "o velho", como Boigny era chamado, governou sem nenhuma
oposição. Criou-se um tal culto em torno de seu nome, que todos os seus
erros políticos tornavam-se imperceptíveis.
Era uma vez um paraíso terrestre
Merecidamente, a Costa do Marfim gozou, nos anos 70, do título de ser a
pérola da África subsaariana, devido a sua primazia na exportação do cacau e
ao terceiro lugar na do café. Nessa época, foi tão grande o fluxo migratório
em direção à Costa do Marfim que, hoje, os estrangeiros provenientes dos
países limítrofes correspondem a um terço da população.
Com a baixa dos preços daqueles dois produtos básicos de exportação,
muitos problemas vieram à tona. Os mais evidentes: crise econômica,
desemprego, problema da terra (até então não existia propriedade privada),
êxodo rural, problemas de nacionalidade (é o caso do sr. Allassane Ouattará
de origem burkinabé que pretendia ser candidato a presidente da república e
não conseguiu) e o tráfico e escravidão de menores.
Mão de obra barata
Com o objetivo de compensar o lucro perdido devido à baixa dos preços do
café e do cacau, os agricultores marfinianos e estrangeiros começaram a
recrutar mão-de-obra de estrangeiros e de menores provenientes dos países
pobres da linha do Sael. Os mais visados são: Burkina Fasso, Mali, Níger e
Guiné francesa. Esse fenômeno já dura 25 anos e somente há pouco tempo a
bandeira de alerta foi alçada, devido às denúncias feitas pelas ONGs que
lutam pelos direitos humanos.
Estima-se que os menores que trabalham em regime de escravidão nas
plantações de café e de cacau da Costa do Marfim sejam uns 20 mil. Esses
menores analfabetos são recrutados em suas aldeias de origem e enviados à
Costa do Marfim por uma rede de traficantes, com a promessa de ganharem uma
vida fácil no eldorado. Suas famílias, geralmente pobres e ingênuas, aceitam
as propostas desses traficantes.
O tráfico é feito com a cumplicidade das autoridades civis e militares
locais. Todavia, a passagem pela fronteira entre os dois países é feita por
pequenos atalhos no meio do mato. Mais adiante, embarcam novamente nos
caminhões ou ônibus que fazem o transporte rodoviário, num percurso de mil a
1,5 mil quilômetros.
Tráfico interno de meninos
Este tráfico de menores não é um mal vindo somente do exterior, mas
existe também dentro da Costa do Marfim. Os agricultores originários do
Leste e do Oeste recrutam também menores no Norte e Nordeste (zona árida),
para trabalharem nas mesmas plantações de café e de cacau.
Como recrutam? Quando os emissários desses agricultores chegam às aldeias,
fazem uma boa propaganda das regiões mais abastadas e, em seguida, abordam
os pais dos menores e negociam com eles o salário por um ano de trabalho. O
preço varia entre 100 e 150 dólares, não incluindo o preço da passagem.
Esses meninos fazem uma jornada de trabalho de 12 horas ininterruptas e
ninguém tem o direito de ficar doente, sob pena de punição. Se de fato
adoecerem gravemente, mandam-nos de volta a sua aldeia natal para serem
tratados pelo curandeiro. É triste constatar que voltam sem dinheiro e
doentes, logo condenados à morte.
No caso de tudo ir bem, são alugados a outros agricultores, em benefício do
próprio patrão.
Tráfico interno de meninas
A lista de denúncias contra o tráfico interno de menores vai ainda mais
adiante, quando analisamos o caso das empregadas domésticas ou vendedoras
ambulantes de água, amendoim ou bolinhos de farinha. Essas meninas, com
idade que varia entre 8 e 17 anos, são levadas para a cidade grande pelos
parentes próximos ou amigos da família que as colocam à disposição de
mulheres comerciantes ou donas de casa.
Vivendo do próprio comércio, essas mulheres adotam as meninas como "filhas"
e assim as exploram com mais facilidade e sem escrúpulos. De vez em quando,
dão-lhes um vestido novo ou enviam algum dinheiro para a família. As
meninas, ainda ingênuas, que passam a maior parte do tempo na rua vendendo
bugigangas, quase sempre se tornam vítimas da exploração sexual de rapazes
inescrupulosos. Quando são empregadas domésticas, são obrigadas a trabalhar
15 horas por dia e acabam também sendo exploradas pelos próprios patrões ou
por seus filhos. Elas não freqüentam a escola e, quando ficam doentes ou
grávidas, são enviadas de volta à casa paterna.
O que faz a Igreja contra esse mal
A maior dificuldade da pastoral da Igreja na Costa do Marfim é ter um
espírito crítico em relação à realidade sociopolítica e econômica do país e
fazer uma leitura dos acontecimentos à luz da fé cristã. Isso depende da
cultura local, onde, de preferência, é a influência dos antepassados que
determina o pensamento (ideologia) atual, carregado de fatalismo e bruxarias,
que não acredita que nada aconteça naturalmente.
Não obstante, algo começa a mudar. Essa mudança procede da pastoral dos
adolescentes, com a boa atuação do movimento Coração Valente - Alma Valente
(CVAV). Durante o ano pastoral de 2000/2001 (de setembro a junho), o tema
escolhido para formação e conscientização dos adolescentes foi: "Não ao
trabalho escravo dos menores".
Muito se falou, discutiu, encenou e celebrou sobre esse tema. Mas o
problema continua, porque os menores são vítimas passivas, enquanto que os
verdadeiros responsáveis deste mal são os adultos que continuam a agir com a
cumplicidade dos parentes.
A batalha não está totalmente perdida. Do nosso lado, continuamos a
conscientizar as comunidades aldeãs sobre as conseqüências desse mal que,
nos últimos anos, se transformou num problema de ordem nacional.
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